— Por que está rindo? — perguntou o boneco, todo confuso e preocupado com aquele nariz que crescia a olhos vistos.
— Dou risada da mentira que me contou.
— Como sabe que eu menti?
— Meu garoto, eu reconheço logo as mentiras, porque há de duas espécies: as mentiras que têm as pernas curtas e as mentiras que têm o nariz comprido. As suas, no caso, são do tipo que têm o nariz comprido. O Pinocchio, não sabendo mais onde se meter de tanta vergonha, tentou escapar do quarto, mas não conseguiu. O seu nariz tinha crescido tanto que não passava mais pela porta.
(COLLODDI, 2020, p.79)
Na sabedoria da Fada Azul em seu diálogo com o boneco de madeira sobre os tipos de mentira encontramos a ideia de uma mentira que logo acaba sendo descoberta e a descrição da mentira que cresce até ficar cada vez mais evidente. Mas se no clássico infantil o boneco fica preso por causa da mentira, hoje muitas mentiras ganham vida própria enquanto seus autores permanecem camuflados em meio ao pecado. Isso acontece porque em tempos de isolamento social e comunicação global “Uma mentira pode viajar meio mundo enquanto a verdade ainda está calçando os seus sapatos”
Segundo o jornalista Sérgio Ludtke isso acontece porque “a mentira é mais sexy que a verdade” e de fato, com o advento da revolução digital e a desintermediação na produção de notícias as pessoas passaram a interagir com a comunicação de maneira predominantemente emocional.
O reflexo desse fenômeno se observa na “pós-verdade”, eleita a palavra do ano de 2016 cujo significado é: “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm menor influência na formação da opinião pública do que os apelos às emoções e crenças pessoais”. Dicionário Oxford
E o que a Escritura tem a dizer sobre tempos de incerteza como estes?
“Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.” 2 Timóteo 4:3-4
Saber que o que acontece em nossos dias foi previsto deve mover cada cristão a resistir ao desejo de se alimentar dessas mentiras palatáveis, às fábulas ou mitos contados com convicção pelos pregadores da pós-verdade, o que somente é possível por meio de uma vida de firme compromisso com a sã doutrina.
Do contrário, se tornarão presas fáceis de falsos mestres, que nesse cenário de constante mudança, “atuam como gerentes e treinadores motivacionais, que pregam o novo evangelho do desempenho e da otimização infinitos”.
(HAN, 2023, p. 48-49)
Quando isso acontece, o sucesso deixa de ser medido em termos de fidelidade à mensagem da Escritura e ao chamado divino, e toma a contramão do modelo bíblico experimentado por homens como Jeremias, Ezequiel e o próprio apóstolo Paulo. Nesse caminho torto da pós-verdade, a medida passa a ser a quantidade de visualizações, curtidas e compartilhamentos, e a sã doutrina acaba substituída por aquilo que gerar mais engajamento.
E como o cristão responde em tempos duvidosos como estes? Quando muitos anseiam viralizar, tornando sua mensagem conhecida pelas multidões, e para isso, estão dispostos a torcer a verdade bíblica ao gosto dos clientes, o salmista ensina que essa busca de coisas maravilhosas demais acaba por alimentar a soberba do coração (Sl 131).
Como antídoto, oferece uma resposta tão óbvia quanto negligenciada pela igreja contemporânea: a humildade de uma alma satisfeita que espera no Senhor é a cura para a busca por relevância que sacrifica a verdade do evangelho.
Essa solução passa pela imitação daquele que anunciou sem se importar se agradaria seus ouvintes: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai a não ser por mim”. (Jo 14.6)
Pois é somente Nele que os homens e mulheres de nariz comprido dos nossos dias, sejam eles produtores ou consumidores de informações fraudulentas, podem abandonar não somente a mentira, mas também a pós-verdade.
Pastor Ygor Castro



